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6 de agosto de 2009

Liberdade x Libertinagem


Hoje há uma mentalidade de se querer a liberdade a qualquer preço, pois todos têm direito de fazer suas escolhas, sejam elas quais forem. E ainda, para se conviver bem em sociedade, prevalecem as ideias que a maioria escolhe.

Mas o problema é que, em um ciclo histórico como o que se vive agora, os indivíduos não possuem referencial. As escolhas serão, portanto, baseadas em interesses pessoais, nos instintos diversos do ser humano (sobrevivência, procriação, preservação da vida e outros). Como os interesses de cada um são distintos, harmonizá-los é considerado algo difícil, um fator que gera vários conflitos, o que cria uma grande separação entre os indivíduos.

Sem entrar no mérito dessa separação, a ideia de que liberdade é “poder de exercer livremente a sua vontade”[1] prevalece e é bastante utilizada nos dias de hoje. A frase está correta, mas o que se entende por vontade hoje é diferente do que significa de fato. O conceito de vontade atualmente está relacionado com a capacidade de fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Entretanto, o querer fazer ou não está mais relacionado com o desejo que se tem sobre algo.

Os clássicos da filosofia faziam uma distinção entre os conceitos de vontade e desejo. A primeira é uma lei universal, um impulso que faz com que tudo exista e ocupe uma função no Cosmos, e está presente em tudo no universo. O desejo, ao contrário, não está preocupado com a utilidade do todo, mas sim em satisfação pessoal, muitas vezes a todo custo.

E hoje, esse conceito de fazer o que quiser, de se ter “liberdade”, prevalece sobre qualquer outro, e agora todos têm o direito de fazerem o que quiserem, desde que não restrinjam os desejos alheios. A professora Delia Steinberg Guzmán[2] diz que:

"Em geral por liberdade se entende um conjunto de benefícios mui curiosos se analisado a fundo: trata-se de obter uma independência total, de não atar-se a nada nem a ninguém, de não comprometer-se para não ver-se obrigado a prestar contas de atos, palavras, pensamentos... Em síntese: é a negação da responsabilidade e o medo de perder o que seja."[3]

Agora, seguindo esse conceito, de que vale tudo, surgem atitudes entre os seres humanos que não cabem à natureza destes. O “ser humano”, entre aspas mesmo, se torna bruto, deixa os seus instintos animais prevalecerem, cometem atrocidades que, às vezes, nem um animal é capaz de cometer.

Que liberdade é essa que, ao invés de deixar o ser humano livre para exercer sua própria natureza humana, deixa-o tornar-se escravo de seus próprios desejos? Essa ideia, a de liberdade, não é, portanto, liberdade e sim o seu oposto: libertinagem.

A libertinagem apresenta a ausência de regras. Neste caso sim, cada um faz o que quer, de acordo com seus interesses. “A liberdade”, como diria o filósofo alemão Immanuel Kant, “é seguir as leis da natureza”. Embora pareça contraditório, seguir essas regras, essas leis, não é fazê-lo cegamente, mas voluntária e conscientemente.

Numa sociedade que se cultiva a libertinagem, "A lei e a justiça não têm outra opção que se acomodar a esta degradação generalizada, porque do contrário juízes, legisladores e políticos ficariam fora do jogo. Os valores humanos brilham por sua ausência: a grosseria, a pornografia, a brutalidade, a indiferença e a irresponsabilidade se convertem nas características de uma juventude cujo espírito está aparentemente adormecido, e nas de outros não tão jovens que pretendem parecê-lo ao atuar desta mesma forma. (...) Aumentam a delinqüência, os crimes, a necessidade de experimentar “coisas novas” por nefastas que sejam, porque a vida já não apresenta estímulos importantes. A novidade substitui a experiência, a extensão a profundidade".[4]

Necessita-se, nos dias atuais, resgatar esse conceito de liberdade, para que cada indivíduo reconheça o seu papel dentro da sociedade. Saber o que é justo para si mesmo, para suas diversas partes que o constituem, para que possa reconhecer essa justiça fora. Essa escolha consciente é a liberdade.

Por Denny Guimarães
Estudante de Filosofia em Nova Acrópole

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Referências:
[1] Dicionário Michaelis: http://michaelis.uol.com.br
[2] Diretora co-regente a Organização Internacional Nova Acrópole (www.acropolis.org)
[3] GUZMÁN, Delia Steinberg. Compromisso e liberdade. OINA: 1994
[4] GUZMÁN, Delia Steinberg. As diferentes velocidades da Idade Média. OINA: 2001.

Um comentário:

  1. Belo post!
    Isso é o que chamaria de discernimento!! :)

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